{"id":1382,"date":"2022-08-11T10:11:00","date_gmt":"2022-08-11T09:11:00","guid":{"rendered":"https:\/\/novo.cantoredondo.eu\/?p=1382"},"modified":"2026-04-26T17:39:49","modified_gmt":"2026-04-26T16:39:49","slug":"celestina-moderna-em-lisboa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novo.cantoredondo.eu\/?p=1382","title":{"rendered":"Celestina (moderna) em Lisboa"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Leitura modernizada da Carta VI<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Publica-se aqui uma leitura modernizada da Carta VI \u2014 <em>Por q\u0303 n\u1ebd tudo seja falarvos de siso<\/em> \u2014, preparada por Felipe de Saavedra como complemento \u00e0 edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica apresentada no volume <em>Celestina em Lisboa<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Esta vers\u00e3o n\u00e3o substitui a edi\u00e7\u00e3o do livro, onde o texto \u00e9 trabalhado a partir das fontes manuscritas e impressas, com aparato cr\u00edtico e enquadramento pr\u00f3prio. Funciona antes como apoio de leitura, destinado a aproximar leitores n\u00e3o especializados da vivacidade sat\u00edrica, burlesca e obscena da carta camoniana.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:15px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Leitura modernizada<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:16px\">Para que nem tudo seja falar-vos com siso, ap\u00f3s as not\u00edcias que vos mandei de \u00c1frica e da \u00cdndia que c\u00e1 chegaram, agora vos mando estas de folgar, que \u00e0 orelha vos hajam de soar melhor. E ainda que escrever-vos isto seja intriga baixa, e de baixo assunto, pois \u00e9 difamar putas, contudo eu n\u00e3o terei culpa alguma se ma n\u00e3o causardes v\u00f3s com me denunciardes, porque eu o escrevo s\u00f3 para v\u00f3s, com quem posso e devo falar tudo. E assim, com esta precau\u00e7\u00e3o de segredo, para que n\u00e3o seja necess\u00e1rio ficardes v\u00f3s culpado comigo, nem eu desculpado convosco, e que n\u00e3o seja eu destas coisas o mais diligente solicitador desta terra, onde nunca faltam m\u00e1s-l\u00ednguas que vos fazem tudo para vos danar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:16px\">Bem sabeis j\u00e1 como \u00e9 entrada nesta cidade Madama del Puerto, com a Senhora Barbora sua filha, e tamb\u00e9m sabeis que este sobrenome \u00abdel Puerto\u00bb n\u00e3o o ganhou ela por cem mil milagres que aqui fizesse, onde por muito tempo residiu em seu of\u00edcio, mas por cem mil velhacarias que lhe renderam cem mil a\u00e7oites que por elas lhe zurziram nas costas, com preg\u00e3o. Porque a Senhora Barbora foi mais vezes cosida e renovada por Sua Madre que umas botas de um escudeiro, que assim a vendia por boa moeda. E, por\u00e9m, \u00e0 puta velha, apanhada em flagrante, chicotearam-lhe as costas com an\u00fancios de trombetas. At\u00e9 que por v\u00e1rios casos, ap\u00f3s muitos acontecimentos, tornou aqui a aportar a Lisboa. \u00d3 m\u00e1 Lisboa, que \u00e9s um ninho velho, e domic\u00edlio antigo de putas antigas! E aqui, como dizem das cegonhas que as mo\u00e7as mant\u00eam as velhas, foi logo a Senhora Barbora exibida por estas paragens, e requestada por alguns novatos, que a n\u00e3o conheciam, que aos veteranos n\u00e3o podia ela enganar. Para estes modernos que eu digo, usou logo a puta velha de um ardil muito bom, que foi fazer a filha casada com um tal M\u00e1rtir de Alentejo, que n\u00e3o reside aqui. E diz ela aos seus devotos que isto \u00e9 muito conveniente, e assim \u00e9, pois com este estratagema abre e fecha quando quer as portas, e se nega, se defende, e ofende, e espanta os tristes dos cachorrinhos novos que com ela gastam o seu dinheiro. Com estes tem ela seus tratos e com\u00e9rcios, e com os mundanos experientes, que sabem da fraude, tem ela seus passatempos. E a velha manda a Senhora Barbora tanger e cantar uma cantiga triste.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:16px\">E olhai esta declara\u00e7\u00e3o, que nem Asc\u00eansio nem Donato a poderiam dar melhor. Os m\u00e1s-l\u00ednguas de agora, se n\u00e3o entremetem o seu latinzinho, acham que n\u00e3o escrevem bem. E eu assim o fa\u00e7o, imitando mais o seu estilo do que o meu. Porque j\u00e1 em escrever-vos ganho algum cr\u00e9dito, e v\u00f3s j\u00e1 me gabastes mais do que eu vos gabo: isto basta para vos escrever agora como eu quiser, sem guardar ordem, nem ordens, conforme ao lugar e estado de religioso em que agora viveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:16px\">E eu vivo noutro estado, o de um morcego, que \u00e9 sem ser ave nem rato. A culpa disto d\u00e1-la-\u00e3o uns a mim, o triste que passa a pena do escrever e a do tormento; os outros aos acontecimentos da fortuna, que n\u00e3o respondem sempre \u00e0 natureza de cada um, ainda que esta seja boa; outros a dar\u00e3o aos cora\u00e7\u00f5es humanos, que nunca se satisfazem; mas enfim, eu sei de quem a culpa \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:16px\">E tornando ao nosso tema, digo que a Senhora Barbora, e a <em>puta de su Madre<\/em>, v\u00e3o t\u00e3o avan\u00e7adas no putarismo que podem ler de c\u00e1tedra. E com os seus ditos graciosos, ora portugueses ora castelhanos, nunca lhes falta onde empregar a sua ci\u00eancia e as suas manhas, porque neste cesto roto de Lisboa, onde elas tudo lan\u00e7am, sabem bem que cada panela tem a sua tampa, e que sempre neste mar magno morrem madra\u00e7os que v\u00eam picar nos seus anzois, com os quais elas pescam de muitas maneiras. E agora anda tudo alvoro\u00e7ado com estas armadas que partem, e na \u00e1gua revolta pesca melhor o pescador. Elas tamb\u00e9m com ardis apanham esses coitados, que h\u00e3o de ir para fora sobre as \u00e1guas do mar, uns enfeitadinhos a quem, como sabeis, se pagam soldos e pens\u00f5es adiantadas, com outras mercezinhas. E t\u00e3o bem os tratam, como se eles fossem franceses. Depois de lhes esvaziarem os bolsos, de bem vestidos e lou\u00e7\u00e3os que andam, os tomam e lhes despem at\u00e9 os cal\u00e7\u00f5es do uniforme.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:16px\">E destes, os que agora d\u00e3o mais nas vistas e mostras s\u00e3o os ceitis, que assim chamamos aos que agora se aprontam para ir para Ceuta. E est\u00e3o as casas destas damas todas cheias destes ceitis, moeda de cobre de que elas fazem alguma prata. E estas falsas revivem para dar morte, que, como o trigo, se n\u00e3o apodrecer na terra n\u00e3o d\u00e1 fruto nem espiga, tamb\u00e9m estas velhacas parece que quanto mais podres de seus males e doen\u00e7as, amortalhadas nos seus len\u00e7\u00f3is, mais remo\u00e7am e reverdecem. Por\u00e9m, j\u00e1 sabeis que a serpente se esconde na erva, como se v\u00ea nelas cada dia, que s\u00e3o pe\u00e7onhent\u00edssimas, mas mesmo como elas s\u00e3o, s\u00e3o desejadas, amadas e requestadas pelos seus amantes, mais perdidos do que elas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:16px\">E das putas em clausura, as mais populares s\u00e3o a Isabel Nunes de Tarifa, a Surradeira, a Marquesa, a Sintroa, a Ant\u00f3nia Bras, e as que chamam as folionas. H\u00e1 tamb\u00e9m outras claustrais, mas mais autorizadas, as freiras, Barbora, Luzia e outras desta laia. H\u00e1 outras ainda de mais autoridade, estas d\u00e3o a sua casa aonde se pagodeia, porque para as pessoas n\u00e3o servem por serem j\u00e1 velhas, tais como Guiomar Mendes, Felipa de Barros, Beatriz Flamenga, com as suas filhas e as amigas delas. E \u00e0s casas destas se vai fazer toda a imundice que digo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:16px\">Aconteceu, pois, que esta semana, uns certos ceitis (que pela honra deles n\u00e3o nomeio) encomendaram um pagode real com Madama del Puerto e sua filha Barbora, e com as velhacas da Surradeira e da Marquesa. E para isto contribu\u00edram com o mais que eles puderam juntar, com que fizeram abastada despesa de comer e beber, para ser tudo levado a Orta Nav\u00eda, em Alc\u00e2ntara, onde havia de ser a par\u00f3dia. E para apimentar o ato, e ser a coisa mais crespa, sa\u00edram de suas casas em plena luz, quando o sol radiante j\u00e1 esparzia os seus doirados raios sobre a face da terra, nesta ordem e concerto, a saber: as damas iam ao varonil, em trajo de homens cavalheiros, em montadas muito guerreiras que eles lhes foram buscar, com penachos recamados de ouro e prata, por ir a coisa meia em prata e meia no cobre dos ceitis. Porque ainda que os senhores eram todos dos ceitis, um deles, que ia principalmente por servidor da Marquesa, era mulato, tinha <em>\u00abo pai de Ronda e a M\u00e3e de Antequera\u00bb<\/em>, ou melhor, da Guin\u00e9. A puta velha, por guardar mais o decoro e majestade de Madre, ia de cadeirinha sobre a albarda, por\u00e9m lou\u00e7\u00e3 e muito enfeitada, e coberta com uma capa de escarlata. Mas, como se diz, \u00e9 escusada a barrela na cabe\u00e7a do asno, porque ela n\u00e3o deixava de parecer quem \u00e9, ou parecia a falsa C\u00e1bria quando a vestiram nos trajos da outra. E desta maneira chegaram a Nav\u00eda, onde se vazaram os odres como alcatruzes, que eram cheios, como se disse, n\u00e3o de \u00e1gua, mas de muito vinho, com que de todo, segundo a fama, desenfadaram os seus corpos. E dou-vos f\u00e9 que me espantaram as coisas que ent\u00e3o fizeram, muito not\u00e1veis, que n\u00e3o s\u00e3o para vos contar. E n\u00e3o vos pare\u00e7a que ficou a Madre velha de todo de fora, porque os cavalheiros eram em maior n\u00famero do que as damas: puseram-se a fazer festa, para que tamb\u00e9m fosse consolada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:16px\">Sa\u00edram-lhes diante uns almog\u00e1vares, que souberam desta ida, os quais eram clientes regulares. E v\u00f3s os conheceis, os amantes destas damas: o primo coirm\u00e3o da Surradeira, e outros. Decidindo afrontarem os ceitis de alguma maneira, perpassaram por eles muitas vezes, a r\u00e9deas tendidas, fazendo muito p\u00f3, e ro\u00e7ando-se com as damas, que iam disto receosas em extremo, por cuidarem que fosse isto caminho para algumas brigas, coisa por certo que as mais namora. Por\u00e9m, os cavalheiros foram logo todos reconhecidos pelos outros, e ficaram bons companheiros. E assim, dissimulando cada um a sua m\u00e1goa, foram-se retirando: os rufias tornaram a Lisboa, e a outra companhia seguiu a sua rota, agasalhando-se naquela noite cada amante com a sua amada, e diz-se que foram provocados pelos outros com agravos amorosos. Outros recontros not\u00e1veis s\u00e3o passados entre matantes e estas senhoras minhas, espero informar-me bem por um matador que me h\u00e1 de contar tudo, ent\u00e3o vo-lo escreverei mais largamente. E por agora contentai-vos com isto, pois creio que vi algo digno de ser contado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:16px\">O vosso homem vos leva esta resposta, quanto \u00e0 minha n\u00e3o esque\u00e7a vossa merc\u00ea de me escrever longamente, como eu fa\u00e7o, sem medo nem vergonha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:16px\">Beijo as m\u00e3os de vossa merc\u00ea desta aldeia de Lisboa, a melhor do Reino, a 20 de maio de 1551 anos \u2014<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Leitura modernizada por Felipe de Saavedra<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:15px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/novo.cantoredondo.eu\/?page_id=1163\">saber mais sobre o livro<\/a><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/espacolivro.eu\/epistolografia\/818-epistolario-magno-luis-camoes-vol-i-celestina-em-lisboa.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">comprar no Espa\u00e7o Livro<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leitura modernizada da Carta VI \u2014 Por q\u0303 n\u1ebd tudo seja falarvos de siso \u2014 preparada por Felipe de Saavedra como complemento \u00e0 edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica publicada em \u00abCelestina em Lisboa\u00bb.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1371,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[88],"tags":[79,89,80,78,82,91,81,90],"class_list":["post-1382","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-complementos-de-leitura","tag-camoes","tag-carta-vi","tag-celestina-em-lisboa","tag-epistolario-magno-de-luis-de-camoes","tag-epistolarios","tag-epistolografia","tag-felipe-de-saavedra","tag-leitura-modernizada"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/novo.cantoredondo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1382","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/novo.cantoredondo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/novo.cantoredondo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novo.cantoredondo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novo.cantoredondo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1382"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/novo.cantoredondo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1382\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1389,"href":"https:\/\/novo.cantoredondo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1382\/revisions\/1389"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novo.cantoredondo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1371"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/novo.cantoredondo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1382"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/novo.cantoredondo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1382"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/novo.cantoredondo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1382"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}