ANTOLOGIA
Selecção, organização, introdução e notas de João Fatela
Prefácio de Guilherme d’Oliveira Martins
preparação editorial · pré-venda em breve

António Morão foi uma das personalidades mais marcantes da Beira Baixa no século XX — padre, jornalista e pensador, interveniente cívico num tempo de censura e silêncio.
Nascido no Peso (Covilhã), em 1925, foi pároco da Orca (Fundão) a partir de 1964, depois de ter sido capelão militar em Angola e professor nos seminários do Fundão e da Guarda. Foi na Orca que se tornou amigo de Michel Giacometti, colaborando na recolha da música popular da Beira Baixa.
A partir de meados de 1967, iniciou uma longa e empenhada colaboração no Jornal do Fundão, onde assumiu funções de chefe de redacção até à sua ida para a Alemanha, em 1978. Nesse período, foi professor, pediu a dispensa do presbiterado e constituiu família. Embora mais irregular, a colaboração com o semanário manteve-se até ao final da sua vida.
Regressou a Portugal em 1990, fixando-se no Fundão, onde leccionou no ensino secundário praticamente até à sua morte, em 1997. Toda a sua trajectória revela um compromisso activo com a justiça social, a intervenção cívica e a liberdade de pensamento.
A sua escrita atravessa décadas marcadas pela guerra, pela repressão e pela necessidade de pensar o país a partir das suas margens.
Esta antologia nasce da urgência de reunir esses textos — dispersos, esquecidos ou silenciados — e fixá-los em livro.
o livro
Os textos aqui reunidos — publicados entre 1967 e 1996, muitos deles no Jornal do Fundão — dão forma a uma antologia resultante de um rigoroso trabalho de selecção, organização temática e contextualização, tornando visível uma das vozes centrais da Beira Baixa e da resistência democrática.
Inclui inéditos — textos sobre a memória da Guerra Colonial e escritos atingidos pela censura — agora recuperados a partir das suas fontes de origem.
A organização temática, assente na leitura integral do espólio publicado e do conjunto de inéditos até agora reunido, privilegia as ressonâncias entre pensamento, tempo histórico e intervenção cívica, estruturando o livro em núcleos que atravessam questões como a democracia, o cristianismo, a memória, a cultura e a vida pública.
Sem se fechar no registo histórico, estes textos revelam uma consciência inquieta e profundamente humana, convocando o leitor para um pensamento crítico, livre e eticamente exigente.
fragmentos
«Falamos de cidadãos e não de súbditos.» (1973)
«A verdadeira democracia não tem que ser protegida por medidas exteriores à sua própria índole. A sua força nasce precisamente da sua coerência e da sua capacidade criadora. Consiga ela renovar, social, económica e culturalmente o povo, e este saberá descobrir onde está o seu interesse e o seu futuro e defendê-la-á com unhas e dentes.» (1978)
«Um jornal não é um mestre de pensar. Fornece todos os dias ou todas as semanas matéria para pensar. Desta situação, diária ou semanalmente repetida, nascem a grandeza e a miséria da Imprensa. E, ao mesmo tempo, a sua terrível e temida responsabilidade.» (1984)
«Há que descobrir no silêncio o valor das palavras, reconquistar-lhes o sentido, renovar-lhes o brilho, como a velha moeda que, limpa das escórias, deixa ver os perfis dos rebordos, os traços das figuras e a data. Mas o silêncio da palavra tem de ser uma condição interior, livremente aceite, e não uma imposição autoritária, de fora, compulsiva.» (1969)
o antologista
João Fatela, antropólogo e psicólogo, nasceu em 1947 no Ferro (Covilhã). Viveu em Paris entre 1971 e 2019, onde exerceu actividade docente, clínica e de investigação.
Entre as suas publicações no domínio das marginalidades sociais, destacam-se O Sangue e a Rua (1989; 2019) e a participação no Dicionário da Geração de 70 (2025).
Foi colaborador da revista Esprit (Paris) e trabalhou, no início da década de 1970, na redacção do Jornal do Fundão, então chefiada por António Morão.
estado do projecto
A obra encontra-se em fase final de preparação editorial. A pré-venda será iniciada em breve.
ficha breve
textos: António Morão
selecção, organização, introdução e notas: João Fatela
prefácio: Guilherme d’Oliveira Martins
colecção: Antologias
edição: Canto Redondo
formato fechado: 150 × 240 mm
miolo: a preto e branco, com imagens e fac-símiles a cores
encadernação: capa mole com badanas
texto em AO45 . c. 500 páginas